Cenário: Dois Estranhos, Uma Sala
Imagine dois estudantes – um xiita, outro sunita – colocando suas malas no chão frio de um quarto de dormitório universitário. Na porta, um número comum. Mas dentro dos corações, há melodias desconhecidas.
Um está preocupado que suas orações possam ser ridicularizadas. O outro teme que sua devoção seja motivo de chacota.
Este não é o começo de uma tragédia. Pode ser o amanhecer de um dos capítulos mais lindos de suas vidas.
Qual é o segredo? Ambos aceitarem que, sob aquele teto, o que dá sentido não é "eu e você", mas "nós" – um "nós" que reza ao mesmo Deus, lê o mesmo Alcorão e se volta para a mesma direção sagrada.
Regra de Ouro Nº 1: O Coração Não É Lugar de Espinhos
Para dividir um teto, não são necessários decretos religiosos nem argumentos complicados.
O princípio mais importante é a boa fé (husn al-dhann).
Sempre que você vir seu colega xiita rezando com as mãos abertas ao lado do corpo, ou seu colega sunita colocando as mãos sobre o peito, ou ele fazendo uma pequena pausa após o chamado para a oração (adhan) – antes de qualquer julgamento, sorria.
Lembre-se a si mesmo:
"Ele também está adorando. O mesmo Deus que eu adoro."
Nenhum de vocês é advogado de defesa ou fiscal do outro. Vocês estão ali para testemunhar a misericade de Deus, não para serem guardas um do outro. Se os corações estiverem livres dos espinhos da suspeita, as flores da amizade brotam naturalmente.
Celebre o que os Une
Numa noite de iftar durante o Ramadã, estenda uma toalha simples sobre o chão. Tâmaras, chá, pão fresco.
Lembrem-se: o jejum de vocês, a direção da oração (qibla), o livro sagrado, o Profeta – e o anseio pela súplica no crepúsculo – tudo isso é um só.
Coloquem as mãos sobre esses pontos em comum. Quando sussurram suas preces lado a lado, voltados para o céu, nenhuma diferença sectária tem o valor dessa lágrima compartilhada.
Vocês podem estabelecer um "contrato não escrito do amor" no quarto:
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Sempre que o Profeta Muhammad (PECE) for mencionado, enviem bênçãos sobre ele (salawat).
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Quando Ahl al-Bayt (a família do Profeta) for mencionada, mantenham a cortesia nas palavras.
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Conversem – não para eliminar o outro, mas para compreendê-lo.
Fronteiras Doces do Respeito
Respeito não significa silêncio forçado. Significa compreensão correta.
Se seu colega sunita fica triste no dia de Ashura e jejua – não por alegria, mas respeitando uma tradição antiga – não diga: "Por que você não chora?" Assim como ele não deve dizer: "Por que você bate no peito?"
Nessa hora, o silêncio acompanhado de um sorriso é respeito, não indiferença.
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Você pode trazer silenciosamente um chá para ele quebrar o jejum.
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Ele pode, na noite do nascimento do Profeta, acender uma vela no quarto – e você pode oferecer doces.
Nenhum de vocês vai mudar de crença. Mas vão mostrar que a humanidade é maior do que qualquer religião.
A frase mais bonita que podem dizer um ao outro é:
"Eu não penso como você, mas respeito o seu direito de ser diferente."
Proibido: Brincadeiras Sobre Crenças (Mesmo em Tom de Humor)
Nunca, mesmo nos momentos mais descontraídos de uma conversa noturna, riam das convicções um do outro.
Humor religioso é como andar sobre gelo fino. Um momento de descuido, e a confiança se quebra.
Se seu amigo tem um sotaque engraçado ou um hábito curioso, riam juntos disso. Mas jamais sorriam com desdém daquilo que é sagrado para ele.
A santidade do santuário do coração alheio é a linha vermelha deste pequeno quarto.
O Quarto como Ensaio para a Paz Mundial
Este pequeno espaço de quatro paredes pode ser um modelo para um mundo maior.
Quando vocês dois mostrarem que um xiita e um sunita podem:
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Compartilhar livros
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Dividir a comida
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Contar segredos um ao outro
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Conversar até de madrugada sobre poesia, futebol e filosofia
...vocês terão enviado uma mensagem enorme:
A unidade não é um slogan vazio. É uma escolha diária.
A escolha de não rir das diferenças. A escolha de erguer juntos a voz para o chamado da oração (adhan). A escolha de dividir uma pizza na noite de provas, sem que a seita seja o critério.
A Receita Final: Um Pacto Simples
Escrevam num pedaço de papel comum:
"Nós, dois muçulmanos, sob este teto, firmamos o pacto de respeitar as crenças um do outro. Nossas línguas serão limpas de insultos e zombarias. E antes de qualquer palavra, enxergaremos o coração do outro.
O Deus Único é testemunha de que queremos ser bons companheiros de quarto – não para provar algo sobre nós mesmos, mas para a satisfação d'Ele."
Fixem este papel na parede, de frente para a qibla. Sempre que o vento soprar pela janela e o papel se mover, lembrem-se: seus corações também tremem com a mesma brisa da misericórdia.
Conclusão: A Arte Perdida de Ser um Bom Companheiro de Quarto
Ser um bom colega de quarto é uma arte perdida que, com um pouco de paciência, se transforma numa obra-prima.
Uma obra-prima onde duas cores diferentes pintam um belo quadro: "Unidade na Diversidade" .
Nesse momento, o dormitório deixa de ser apenas um quarto de estudante. Ele se torna uma pequena mesquita de paz – um lugar onde duas pessoas provam que o Islã, antes de ser uma seita ou uma escola de pensamento, é bondade, compaixão e misericórdia.
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